Conta de luz pode subir mais de 20% e ter peso
extra no bolso do consumidor
Foto: Ricardo Giusti / CP Memória
Em um ano de inflação baixa, a conta de luz deve
ter um peso extra no bolso dos consumidores. Segundo estimativas da Agência Nacional
de Energia Elétrica (Aneel), o reajuste médio nas contas ficará acima de 10%
este ano. Em alguns casos, a alta deve superar a casa dos 20%.
As razões para esse aumento, muito acima do
Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) previsto para o ano, são a
falta de chuvas, que levou ao acionamento de usinas térmicas, muito mais caras
que as hidrelétricas, mas também os subsídios embutidos na conta de luz, que
não param de crescer, e segundo executivos do setor, erros de planejamento.
De acordo com Romeu Rufino, presidente da
agência, os aumentos da conta de energia devem ter comportamento semelhante aos
autorizados para os clientes fluminenses da Light e Enel Rio. Nesta semana, a
Aneel autorizou um aumento tarifário médio de 10,36% nas tarifas da Light, que
atende a cidade do Rio e outros 30 municípios do Estado. Na Enel Rio, que
fornece energia para Niterói e outras 66 cidades fluminenses, a alta, em média,
foi de 21,04%.
A diferença entre os índices autorizados para
cidades tão próximas tem explicação. Na Light, houve reajuste ordinário, que é
feito todos os anos. Já para a Enel Rio foi realizada a revisão tarifária,
processo que é realizado de quatro em quatro anos para manter o equilíbrio
econômico-financeiro dos contratos. Nas revisões, as empresas são reembolsadas
por investimentos feitos na expansão da rede e na melhoria dos serviços.
Segundo Rufino, os consumidores, de forma geral, devem esperar comportamento
semelhante ao verificado nos casos da Light e da Enel Rio.
Os reajustes anuais devem ser da ordem de 10%. É
o caso de empresas como Eletropaulo (São Paulo) e Copel (Paraná), por exemplo.
Mas, para aqueles atendidos pelo grupo de empresas que vão passar por revisão
tarifária, a alta deve ser de cerca de 20% - caso da Cemig (Minas), RGE Sul
(Rio Grande do Sul) e Energisa (em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), entre
outras.
Gestão
Diversos fatores explicam o aumento, mas há uma
avaliação de que falhas cometidas na gestão do setor elétrico no passado têm
causado impacto nas tarifas até hoje. O presidente da Empresa de Pesquisa
Energética (EPE), Luiz Barroso, lembra que principalmente nos últimos anos da
gestão Dilma Rousseff foram realizados leilões para contratação de novas usinas
e linhas em nível bem acima do necessário, por conta da recessão. Segundo ele,
somente no ano passado o consumo de energia voltou aos patamares registrados em
2014.
"Perdemos três anos de crescimento por causa
da recessão. Parte desses custos da tarifa hoje serve para pagar reforços nos
sistemas de geração e transmissão que vieram para atender a um mercado que não
se concretizou", afirmou Barroso.
O secretário executivo do Ministério de Minas e
Energia (MME), Paulo Pedrosa, reconhece que o aumento tarifário desagrada à
população, mas reafirma que o governo não adotará nenhuma medida
intervencionista para maquiar os preços. "Já se enganou muito o consumidor
a respeito do custo da energia. Infelizmente, só agora a verdade
apareceu", afirmou.
Regional
Rufino,
da Aneel, faz fortes críticas aos subsídios, cobrados por meio de encargos
setoriais. Os subsídios vão custar R$ 18 bilhões neste ano, 30% mais que no ano
passado, e serão integralmente pagos pelos clientes. Isso significa que o
consumidor residencial paga uma conta mais cara para que seja possível oferecer
descontos para agricultores, irrigantes, produtores de carvão, geradores de
energias renováveis, além de distribuidoras no Norte, que utilizam
termoelétricas a diesel e óleo combustível. "Todas as empresas já estão
condenadas a um aumento de 2,5 pontos porcentuais por conta dos encargos
setoriais. Os subsídios não param de crescer e já têm peso de 20% nas
tarifas", disse Rufino.
O
presidente da Aneel destacou ainda que, além da seca, que reduziu o uso de
hidrelétricas e levou ao acionamento das termoelétricas, mais caras, a decisão
do governo Temer de cobrar bônus de outorga das usinas que foram licitadas
também elevou os custos de geração, pois as empresas que compram os
empreendimentos em leilão repassam essa cobrança à tarifa final. "Só o
leilão das usinas da Cemig teve impacto de 1 ponto porcentual nas
tarifas."
Pedrosa, do MME, admite que isso encarece as
tarifas, mas disse que parte do ganho vai gerar abatimentos futuros na conta de
luz. Ele destacou que a pasta enviou à Casa Civil um projeto de lei com o novo
modelo do setor elétrico, que busca resolver passivos do passado, reduzir o
peso dos subsídios e promover a competição e a eficiência no setor.
ESTADÃO conteúdo
Correio do Povo
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