Casas de luxo abandonadas em meio à pobreza das
vielas da Vila Maria da Conceição refletem a debandada dos aliados do
traficante Paulão
Casebres e vielas contrastam com a mansão de traficante (ao fundo)Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
Há um rei deposto na
Vila Maria da Conceição, Bairro Partenon. Ou um exército em retirada
estratégica. Essa é a constatação possível quando se entra pelas vielas de
terra - com becos onde mal passam duas pessoas a pé - e surgem na paisagem
suntuosas casas, destoantes do ambiente de pobreza. Estão, na maior parte,
abandonadas.
De acordo com a Brigada
Militar, foram deixadas para trás pelos principais gerentes do tráfico naquela
área, ligados a Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão da Conceição, nas duas
últimas semanas.
Ninguém quer ocupar as
casas
Mesmo com portas
arrombadas e a maior parte dos móveis já retirados, ninguém ousa ocupar, até
agora, as residências. Na tarde de quarta, a reportagem constatou essa situação
em pelo menos cinco casas da vila.
- Quem está saindo de
casa não são moradores comuns, e, como não há um novo comando, ninguém invade.
Por medo e respeito. Ou porque esperam o que pode acontecer - acredita o
sargento Diógenes da Silva, que comanda a força-tarefa do 19º BPM, que atua
dentro da vila.
Parentes de Paulão
fugiram
No começo de maio, o
traficante conhecido como Xu, um antigo gerente de Paulão, resolveu assumir o
controle do tráfico na Conceição. Desde então, a zona está em guerra aberta.
Nas ruas, o boato é de que os últimos parentes do Paulão da Conceição que ainda
moravam na vila buscaram abrigo em outras regiões.
Um luxo só
O maior símbolo da
debandada provocada pela guerra do tráfico está em um beco estreito no final da
Rua Irmã Nely. Camuflada por uma série de casebres, ergue-se uma mansão com
três andares e cobertura.
A casa é apontada pela
polícia como o local onde a família de Paulão viveu por mais de uma década. Nos
últimos anos, pelo menos três mandados judiciais foram cumpridos no local pelo
Denarc e o Ministério Público. Sempre vinculados ao traficante, atualmente
preso na Pasc, em Charqueadas.
O acesso é difícil,
porque não se veem portões ou um pátio. É preciso passar por um labirinto de
corredores, quase por dentro dos casebres. Um caminho sinuoso até chegar à
mansão, de porta arrombada.
Com pintura caprichada,
detalhes em tijolos à vista e poucas janelas, tudo lembra as casas dos líderes
do tráfico carioca. Lá dentro, há banheiros com hidromassagem, pelo menos seis
quartos, lustres de cristal, quadros e azulejos decorando cada ambiente. Nas
paredes, imagens de santos - em especial São Jorge.
Tudo está abandonado, só
os eletrodomésticos foram retirados.
Até boca de fumo virou
casa fantasma
O esgoto correndo a céu
aberto e o caminho com lixo espalhado pelos cantos contrasta com as duas casas
amplas, bem cuidadas e de pintura nova no final do Beco Caxias. As duas estão
vazias desde o começo de maio. Teriam sido as primeiras abandonadas na vila,
logo depois da morte de um dos gerentes de Paulão.
A última casa
abandonada, no entanto, não era uma moradia. Conforme o levantamento da
polícia, era o local onde Sandro Drey de Souza, 21 anos, sobrinho do patrão do
tráfico e executado há uma semana, mantinha uma boca de fumo. O local onde os
usuários supostamente se reuniam - uma sala ampla - tem como únicos móveis
bancos que formam um círculo.
- Aqui que eles faziam a
"farinhada" (consumo de cocaína) - aponta um PM.
Há indícios de que
remanescentes da quadrilha ainda sustentam esse ponto de tráfico.
A guerra
A região abrigaria pelo
menos 50 pontos de tráfico, com movimentação de mais de R$ 1,2 milhão por mês.
Um império que ganhou
status de maior da Capital nos anos 90, liderado por Paulão da Conceição.
Com o líder preso e
doente, um antigo gerente, conhecido como Xu, rebelou-se e estaria liderando a
guerra para tomar o controle da região. Paulão também perdeu o controle da
galeria da qual era líder, na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.
A polícia investiga
articulações para a retomada do controle, tanto por parte de Beto Drey (enteado
do Paulão), quanto do próprio Paulão.
Golpe no bando que tenta
tomar o poder
O grupo de traficantes
que estaria desafiando o poder da quadrilha liderada por Paulão sofreu um duro
golpe na madrugada de ontem. Na sequência de três ações, a Brigada Militar
prendeu seis homens na Zona Sul da Capital.
Entre eles estavam João
Carlos da Silva Trindade, o Colete, 35 anos, e Anderson da Silva, o Tetão, 26
anos, ambos com antecedentes por roubos, tráfico e homicídio, e apontados pela
polícia como os principais articuladores aliados ao traficante Xu que comanda a
tomada dos pontos da Vila Maria da Conceição.
Quem fica na vila, fica
calado
Na tarde de quarta, um
menino miudinho, com não mais do que seis anos, de bermudas rasgadas, sem
camisa, pés descalços, saiu correndo de um barraco, indiferente ao contraste da
mansão.
Carregava um cano de PVC
simulando um fuzil. Os tiros imaginários, no entanto, não quebravam o silêncio
permanente nas últimas semanas no coração da vila. Depois das 18h, não se vê
ninguém nas ruas.
Reflexo do medo, uma
casinha verde, na esquina entre as ruas Irmã Nely e Carlos de Laet, há duas
semanas está fechada. Moravam ali três mulheres com quatro crianças. Ao
abandonar a casa, a moradora explicou aos PMs:
- Eu sei que vai dar
tiroteio. Com paredes de madeira, é muito arriscado.
Do outro lado da
esquina, uma casa foi "fortificada". O muro existente foi erguido até
a altura do teto da moradia. Foram deixadas só algumas frestas, supostamente,
para atiradores.
De acordo com a Brigada
Militar, fica nesse local o centro nervoso das bocas lideradas pelo bando de
Paulão.
Sem piedade
Desde o começo de maio,
pelo menos quatro gerentes do tráfico, pertencentes à facção de Paulão, foram
executados.
Fonte:
Eduardo Torres | DIÁRIO GAÚCHO
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