Casas-abrigo acolhem mulheres e seus filhos que
fogem das agressões de maridos e pais. Apavoradas, abandonam suas vidas e se
submetem a uma prisão voluntária
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
Escondidos
entre grades e com um vigilante no portão de ferro que dá para a rua, vivem
mães e filhos, em 12 casas-abrigo espalhadas pelo Estado. Estão fugindo de
maridos e pais agressores. A abrigagem é a ação mais extrema entre as medidas
protetivas.
Hoje, são
27 mulheres e 42 crianças forçadas pela violência doméstica a deixarem suas
casas, roupas, seus empregos, a escola dos filhos. Elas abandonam as próprias
vidas.
Em Porto
Alegre, pelo menos seis famílias estão sob proteção na casa Viva Maria. O
endereço não é divulgado por segurança.
É lá que,
pela quarta vez, Tatiane, 24 anos, encontrou ajuda para fugir do ex-marido, com
quem foi casada por quase cinco anos. Com ela, estão os três filhos (de 11
meses, de dois e de quatro anos).
"Aqui
estou segura"
- As
drogas acabaram com ele (o ex-marido). Nas duas reconciliações, ele havia
prometido que iria se tratar. Mas isso não ocorreu, e as agressões só pioraram
- recorda.
Separada
desde agosto de 2012, quando ficou quase quatro meses na casa de apoio, Tatiane
voltou a ser perseguida pelo ex no início de maio. Depois de descobrir onde ela
morava, ele a surpreendeu quando chegava do trabalho. Agredida a socos e
ameaçada de morte, Tatiane, mais uma vez, buscou ajuda em um dos Centros de
Referência de Assistência Social.
- Saí de
casa só com os meus filhos e as roupas do corpo. Deixei o emprego. Mas aqui
estou segura - resume.
Desde que
voltou para o abrigo, ela não pôde mais visitar ou ver o restante da família.
Por conta própria, conseguiu um novo emprego. Os filhos ainda aguardam uma nova
creche.
- Minha
vontade era ir embora para bem longe com os meus filhos, mas tenho família
aqui. Só não é justo eu estar presa e ele (ex-marido) solto - desabafa.
Vítima
apanhava até dos pais do marido
Aos 23
anos, mãe de duas filhas, Márcia (nome fictício) pediu demissão do emprego e
chegou ao Viva Maria apenas com a mochila escolar da filha mais velha, de cinco
anos. Casada há nove anos, mentiu à família do marido que iria ao médico e saiu
de casa com as duas filhas. Era maltratada até pelos pais do companheiro.
- Nos
últimos dois anos, ele ficava drogado o dia inteiro. Ameaçava eu e as crianças
com faca e machado. Tive medo de morrer - recorda.
Sem ir à
rua há duas semanas, desde que chegou ao abrigo, Márcia ainda tenta se adaptar
às regras do local. Quando for liberada pelo serviço de apoio para sair, vai
procurar um novo emprego.
- É
difícil viver num lugar onde eu não conheço ninguém. Minhas filhas têm alergia
ao cobertor, mas não posso voltar em casa para pegar o edredom delas. Me sinto
isolada - afirma.
Medida
extrema
De acordo
com a coordenadora do Escuta Lilás, Érica Kern Lopes, do Centro de Referência
Vânia Araújo Machado, o principal objetivo do abrigamento é refazer a vida das
vítimas.
- Enquanto
se encontram abrigadas, elas são atendidas para a reorganização pessoal e
social - explica.
Para a
titular do Juizado da Violência Doméstica e Familiar de Porto Alegre, Madgéli
Frantz Machado, o abrigo é a medida mais extrema das ações de proteção:
- Muitas
vezes, a mulher não tem noção do risco que corre, pois está acostumada com a
violência, e a banaliza. É preciso a orientação para que entenda a necessidade
de deixar aquela vida.
Mais
antiga do Brasil
Segundo a
coordenadora da casa Viva Maria, Luciane Ferreira Machado, as mulheres chegam
ao lar revoltadas e traumatizadas pela violência. No abrigo, o choque inicial é
com as regras estabelecidas, como horário para acordar, comer e dormir. Muitas,
relata Luciane, acabam se sentindo aprisionadas.
Com
capacidade para receber até 11 famílias, a Viva Maria existe há 21 anos, e é o
serviço mais antigo em funcionamento no Brasil.
Como
funcionam os abrigos
- Cada
casa-abrigo está em um município diferente. Porém, os encaminhamentos das
mulheres em situação de risco de morte em função de violência doméstica e
familiar se dão por meio dos centros de referência municipais de atendimento às
mulheres, coordenadorias municipais da mulher, delegacias de polícia, Brigada
Militar, Judiciário, Creas/Secretaria Municipal da Assistência Social, Unidades
de Saúde/Secretaria Municipal da Saúde, Ministério Público e Conselho Tutelar.
- As
mulheres devem acessar os serviços que compõem a Rede de Atendimento Municipal
e, a partir deste acolhimento, devem receber os encaminhamentos necessários
para sua proteção.
- Outra
alternativa que o Estado dispõe é o Escuta Lilás, programa que integra o Centro
de Referência Estadual da Mulher Vânia Araújo Machado, que faz o acolhimento e
fornece orientações às mulheres. As ligações, gratuitas, podem ser feitas para
o telefone: 0800-5410803.
Fonte:
Aline Custódio | DIÁRIO GAÚCHO
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